sábado, 1 de outubro de 2011

Vinhos Alentejanos no CCB


Não, não é um novo espetáculo, mas sim um encontro de vários produtores que dão a provar as suas novas colheitas, ou seja passo o comunicado:

Os Vinhos do Alentejo vão estar em prova livre nos dias 30 de Setembro e 1 de Outubro no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, no âmbito do evento “Vinhos do Alentejo em Lisboa”, dirigido a todos os consumidores e organizado pela Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), com produção da Essência do Vinho.

O evento “Vinhos do Alentejo em Lisboa” conta com a presença de dezenas de produtores e mais de 300 vinhos da região do Alentejo. Durante dois dias irão decorrer provas temáticas, sujeitas a inscrição e orientadas por alguns dos mais conceituados especialistas, como Aníbal Coutinho (enólogo e crítico de vinhos), Rui Falcão (crítico de vinhos) e Manuel Moreira (sommelier e crítico de vinhos). No sábado, pelas 19h30, os visitantes poderão ainda assistir a um showcase exclusivo da banda sensação ‘Os Azeitonas’, que irá apresentar ao vivo alguns dos temas mais conhecidos do seu reportório.

O evento “Vinhos do Alentejo em Lisboa” pode ser visitado dia 30, sexta-feira, das 16h00 às 21h00, e dia 1, sábado, das 15h00 às 21h00.

Informações adicionais estão disponíveis no sítio da CVRA www.vinhosdoalentejo.pt

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

200 anos de história(s)

Eram seis da manhã de sexta-feira e alterei a minha rotina habitual, acordando ligeiramente mais cedo para fazer uma viagem de mais de 300 quilómetros, que separam a minha casa de Gaia.
 

Mas a ânsia de chegar ao destino traduziu o esforço em prazer, pois era para fazer uma das provas vínicas mais fantásticas da minha vida.
 

Os quilómetros da estrada eram poucos, tendo em consideração os anos de história que iria ter o prazer de conhecer. 

A festa era de dois séculos e, para celebrar, foram abertos seis vintages muito especiais, colmatando com um tinto comemorativo do bicentenário: o Antónia Adelaide Ferreira Douro 2008.
 

Mas voltando aos vintages, coube ao enólogo da casa, Luís Sottomayor, abrir e comentar a prova, começando nada mais nada menos do que com o Ferreirinha 1851.
 

O 1851 era um verdadeiro estrondo no nariz e cor, revelando, apesar dos 160 anos, um aroma intenso, muito complexo, e um ligeiro vinagre habitual neste tipo de vinhos. 

As supresas não pararam por aqui, pois a boca era marcada pelos taninos e uma acidez apaixonante, terminando muito intenso, longuíssimo e, acima de tudo, em grande! 

Confesso que este foi o meu preferido.

Seguiram-se os de 1847 e 1840, não sei se foi porque ainda estava deslumbrado pelo primeiro, mas estes foram os que menos me fascinaram, não que os tenha considerado maus, simplesmente não foram tão arrebatadores. 

 
O primeiro era um pouco mais doce, com notas de baunilha e especiaria, e, no ano do seu lançamento, foi considerado um dos melhores. 

O segundo, muito complexo e intenso, revelou notas de figos e alguns frutos secos, mas o final era muito persistente e um pouco forte para o meu gosto.
 

Ainda houve tempo para provar alguns dos anos trinta, ora foram os anos 1834 e 1830 que tive o privilégio de levar ao nariz e boca, e ainda apaixonarem os meus olhos com as suas cores vivas douradas, duas verdadeiras pérolas. 

Em 34, o resultado foi um vinho muito apaixonante, com notas fortes de madeira, frutos secos e algumas notas ligeiras de especiarias, boa acidez e frescura, terminando muito longo. 

Já o 30, manteve a toada do 34, com alguma complexidade e um nariz rico em notas aromáticas, destacando-se a fruta seca, especialmente pinhões, na boca revelando boa acidez, frescura, muito equilíbrio e paixão.
 

Se pensarmos em Portos, raramente pensamos em mais de 40 anos, e muito menos acima dos 100 anos, mas pensar próximo dos duzentos é que é verdadeiramente único, e foi assim que pensei antes de me iniciar no verdadeiro ex-líbris da prova, o Ferreirinha Vintage de 1815!
 

São tantos os factos históricos a que este vinho pôde assistir, que não há linhas suficientes para o resumir, mas um sobressai: a Dona Antónia Ferreira tinha apenas 4 anos de idade quando este vinho veio ao mundo.
 

É o famoso Vintage de Waterloo, com aromas ricos e intensos a madeiras exóticas, especiarias de todos os tipos, cera, e um conjunto de mais centos de aromas apaixonantes e fruto de um envelhecimento contínuo. 

A boca revela uma frescura fantástica, viva, apaixonante, com uma acidez equilibrada pelo seu perfil único. E, rematando com as palavras do enólogo Luís Sottomayor, "Um vinho apaixonante".
 

Foram seis provas inesquecíveis, infelizmente apenas partilháveis pelas palavras, pois a escassa quantidade não permite que estes se comercializem. 

Do Vintage 1815, apenas ficaram 50 garrafas para história, havendo a possibilidade de alguns privilegiados acompanharem a biografia da sua evolução. Espero ser um deles.
 

Mas como nem tudo ficou apenas resumido a estas linhas, volto ao início e ao vinho da comemoração: o Antónia Adelaide Ferreira Douro 2008, que vai ser comercializado já a partir de Novembro, e quem quiser comprar uma (ou mais) das 3500 garrafas produzidas, terá de guardar pelo menos €45. 

As uvas foram seleccionadas das melhores barricas de cada uma das várias quintas do produtor, representando o Douro nas suas diferentes regiões, altitudes e exposições.


Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 28 de Setembro de 2011

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Compre o que é nosso: Salicórnia

Salina Figueira Foz, Eiras Largas
Há centenas de produtos que nascem por todo o país, que para muitos são considerados pragas, e para quem dá um pouco mais de atenção, descobre que está sobre uma verdadeira pérola.

A salicórnia, também conhecida por sal verde ou espargos do mar, é uma erva halófita que cresce normalmente nos sapais (salinas), sendo altamente tolerante ao sal, e com uma particularidade e singularidade única: é salgada.

Para muitos é uma desconhecida, e quem a vê associa mais rapidamente a uma erva daninha, ou uma erva para as larvas, antes de pensar em apanhá-la e levar para casa para a utilizar na sua cozinha.

O que é certo é que esta erva suculenta, verde e pequena tem uma textura intrigante e um sabor a sal curioso, sendo mesmo utilizado como substituo do cloreto de sódio (sal) em saladas, ou mesmo em pratos mais complexos.

Segundo alguns médicos, a salicónia além de ser abundante em vitaminas, proteínas, ácidos gordos e sais biológicos altamente assimiláveis e vitais para o equilíbrio alimentar, é altamente aconselhada para os hipertensos, uma vez que pode ser um substituto do sal na cozinha.

Apesar do desconhecimento na cozinha dos portugueses, não passou despercebida aos grandes chefes de cozinha que adoram criar pratos utilizando este produto, principalmente como um substituto salgado, mas também pela sua curiosa aparência e textura.

Salina Figueira Foz, Eiras Largas
A Salicórnia é apanhada fresca entre Março e Agosto, (às vezes aparece em Fevereiro ou estende-se até Setembro) e após Setembro até Outubro é apanhada seca e triturada para se vender em pó. Curiosamente, é o Brasil que fica com grande fatia desta variante.

O José João da Casa do Sal, proprietário da Salina Figueira Foz, Eiras Largas – Margem sul da Figueira na zona da Gala, além dos cristais, apanha regularmente esta erva, e distribui e vende para vários pontos do país a €20 o quilo, e também pode ser comprada através do site www.casadosal.pt.

O meu conselho é que arrisque na sua saúde e acredite que é luso e é bom. 

Para comentar este artigo ou sugerir temas contacte o autor por gourmet@live.com.pt.

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 27 de Setembro de 2011

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

4th Floor, O primeiro "serão"

4th Floor in action!
Foi ontem que aconteceu o primeiro jantar do 4th Floor, e que maneira de começar, foi um verdadeiro estrondo!

Começou como uma ideia engraçada, que rapidamente se transformou num desafio, nunca chegou ao pesadelo, porque a vontade transformou o cansaço em realização, e o sonho em paixão.

O mentor e anfitrião foi o Alexandre Silva, chefe do prestigiadíssimo restaurante Bocca em Lisboa. 

A sua criatividade, técnica e paixão já lhe valeram vários prémios, louvas e elogios dos seus parceiros e clientes.

Mas a ambição de fazer algo novo e diferente levou-o a transformar a sua casa num “loft gastronómico” criando para isso o 4th Floor. 

A ideia é simples: pensar na criatividade sem limites, juntar um grupo de oito pessoas com uma mente aberta à novidade, e deixar o limite sem limites, e o resultado foi verdadeiramente fantástico.

Apenas alguns minutos antes da hora marcada para o dia 25 de Setembro, 20h certas, a cozinha do quarto andar, num edifício recuperado no Bairro dos Anjos em Lisboa, está repleta de técnicos, criativos e principalmente cozinheiros. Eram eles o Alexandre Silva (anfitrião e chefe), Francisco Gomes (pasteleiro), Bernardo Agrela e o Tó Zé (cozinheiros), ainda a ajudar estavam a Alexandra e a Francisca (anfitriã) que preparavam as mesas, e o Ricardo que escolhia os vinhos! 

Sandwiche com crocante de galinha e ovas
O jantar prometia.


Mas nada do que se via na cozinha apareceu lá por milagre, e nos dias anteriores já tinha havido visitas e compras em vários locais, como no mercado Biológico no Príncipe Real ou o tão conhecido mercado da Ribeira em Santos.

Às 20h só uma pessoa faltava, mas os cocktails foram servidos na varanda, onde ainda havia alguns raios de luz, que desvendavam o verde da bebida: era uma mistura de espinafres e limão.

Atrasos à parte, os sete que chegaram sentaram-se e as hostes deram inicio ao serão gastronómico!

A sala decorada com sobriedade, musica ambiente, a mesa com porcelanas bonitas, talheres adequados e copos a preceito, eram o prognóstico de uma noite fantástica.

(Vou só dizer os nomes dos pratos, pois foi um jantar de amigos e não há espaço para a critica, apenas para as louvas)

Ostras, a meloa e o pepino
  1. (amuse bouche) - Sandwiche com crocante de galinha e ovas, acompanhado pelo Herdade da Ajuda Rosé 2010;
  2. Ostras, a meloa e o pepino e o Rieseling da Quinta de Sant’Ana 2010;
  3. Sashimi de corvina, com geleia da cabeça e tomate, harmonizado com o Lavradores de Feitoria Três Bagos Sauvignon Blanc 2010;
  4. Camarões “raw” e Julia Kemper Branco 2009;
  5. Falso escabeche de mexilhões e Vale D’Algares Branco D – Alvarinho 2010;
  6. Percebes, algas e caldo casado com o Quanta Terra Branco Grande Reserva 2009;
  7. Corvina em para quedas sobre puré, Alves de Sousa Abandonado 2007;
  8. (amuse bouche) - Shot de tomate e baunilha, shot ananás e flor de laranjeira, e colher de cremoso de guanaja e crumble de avelã;
  9. (pré desert) - Panacotta de chocolate com café crocante;
  10. Esfera de framboesa, geleia de chocolate e citronela, falso guimaves de frutos vermelhos, salsa de chocolate quente, acompanhado por um apaixonante LBV de 1974;
  11. Pêssego a baixa temperatura, mousse de opalys, biscoito de pistáchio, película de laranja, crocante de amêndoa e falso puré de laranja.
Ainda ouve direito a Mignardises, como macarrons e chupas de chocolate e peta zetas para acompanhar o café.

Apesar de todos estarem bons, destaco as ostras e o riesling de Sant’Ana, o falso escabeche de mexilhões e a fantástica corvina cozinhada a baixa temperatura.

Nas sobremesas, o Francisco excedeu-se, e os seus globos de chocolate eram  uma verdadeira maravilha. E dos macarrons ….

Sashimi de corvina, com geleia da cabeça e tomate
Bem, infelizmente agora só me restam as memórias, porque estes momentos podiam durar um pouco mais!

Mas garanto que os oito comensais que tiveram o privilégio de estar sentados no 4th Floor e degustaram estes 11 pratos, saíram todos com um sorriso na cara, e principalmente sem precisar de sais para ajudar a digestão de quase uma dezena de pratos, foi uma refeição equilibrada, num crescendo de intensidade de texturas e sabores.




Resta-me um obrigado pelo momento, e um até já replecto de saudade!

As fotografias foram retiradas com o telemóvel, sem qualquer tipo de pretensões, simplesmente para imortalizar o jantar!

Para quem quiser ir aos próximos, aqui vai o link:
http://www.facebook.com/4thFloorCozinhaExperimental

Camarões “raw”
Falso escabeche de mexilhões
Percebes, algas e o caldo
Corvina em para quedas sobre puré
Shot de tomate e baunilha, shot ananás e flor de laranjeira,
e colher de cremoso de guanaja e crumble de avelã
Panacotta de chocolate com café crocante
Esfera de framboesa, geleia de chocolate e citronela,
falso guimaves de frutos vermelhos,
salsa de chocolate quente
Pêssego a baixa temperatura, mousse de opalys,
biscoito de pistáchio, película de laranja,
crocante de amêndoa e falso puré de laranja
Macarron (framboesa, chocolate e laranja sanguínea)

domingo, 18 de setembro de 2011

Finalmente é Sexta-feira

Em Portugal, há um grande estigma quando se fala de restaurantes de hotéis.
 

Na realidade, há muita tinta que se pode gastar falando negativamente destes espaços, mas a verdade é que também há muita para gastar para realçar as qualidades gastronómicas dos mesmos.
 

Além de cozinha de hotel, os restaurantes têm agora uma nova nuance: a cozinha de autor, ou a cozinha de chefe, perdendo-se assim muita daquela que era a cozinha clássica destes espaços, os cabritos, os bifes tártaros, as grandes costeletas, os flamejados, entre outros.
 

Mas a verdade é que ainda há muito espaço onde podemos gabar essa cozinha, e aqui destaco alguns que, nos últimos tempos, visitei, onde comi, e adorei.

A Viscondessa (Palácio da Lousã)

 
Fica no fantástico palácio da Viscondessa do Espinhal, do séc. XVII, com uma decoração clássica e bonita. Na cozinha, é o clássico que novamente vem à memória, revelando muitos dos sabores da cozinha regional, oferecendo uma gastronomia com produtos da mais alta qualidade, resultando em pratos como: Creme de Castanhas, Cabrito assado no forno, o Bife do lombo com murrilhas e o delicioso Pudim maravilha.
 

Largo Viscondessa do Espinhal, Lousã
T: 239 990 800
www.palaciodalousa.com


Dona Belinha (Hotel Meira)



Infelizmente, a dona Felisbela (Belinha) já cá não está para cozinhar, mas a sua herança ficou e o rigor da altíssima gastronomia rústica ainda por lá está. Se tem dúvidas, prove a Torta de camarão, Sardinhas de rabo ao alto ou o Peru estufado e recheado, e depois renda-se às evidências. 

Rua 5 de Outubro 56,
Vila Praia de Âncora
T: 258 911 111
www.hotelmeira.com

Aviz (Hotel Aviz Lisboa)
 

O famoso flambeado do Aviz
Já andou a passear por Lisboa, e até fora dela, mas agora assentou arraiais junto ao Marquês e não se esqueceu de nenhuma das receitas. 

A Santola recheada à Aviz, o Bacalhau à Aviz,
as coxas de rã, a perdiz à Convento de Alcântara e os crepes flambeados Aviz são verdadeiros deleites gastronómicos.
 

R. Duque de Palmela 32, Lisboa
T: 210 402 000
www.hotelaviz.com

Reserva Online (gratuito)

Grill D. Fernando (Hotel Altis - Castilho)
 

A cozinha de sala do Altis
Fica escondido no último andar do Hotel Altis, mas quem lá vai não se esconde à cidade de Lisboa, pois a vista é verdadeiramente impressionante, e a comida não lhe fica atrás. 

Da carta destacam-se o Creme Frio Aveludado de Agriões com Amêndoa Torrada, o Bisque de Lagosta traçado com Ginja de Óbidos, o Tornedó da Casa, o Bife Tártaro e o fantástico Flamejado de Ananás ao Cognac... 

....e nunca esquecer o Pastel de Nata!
 

Rua Castilho 11, Lisboa
T: 213 544 735
www.hotel-altis.pt

Reserva Online (gratuito)

Gourmet (Pousada do Convento de Belmonte)
 

O Creme Brûlée servido numa pedra trabalhada
É um espaço lindíssimo na Serra da Esperança e, da sala de jantar, a vista é de cortar a respiração. Da cozinha saem verdadeiros acepipes, numa mistura entre o clássico, o rústico, mas com uma apresentação contemporânea. 
O chefe Valdir Lubeck tem no sangue uma grande mescla de nações e continentes, mas adaptou-se perfeitamente ao local, trazendo à mesa os mais nobres produtos da região, onde se inclui o cogumelo, que já tem direito a festival. 
Quando visitar, perca-se primeiro no Capuccino de cogumelos, o Aveludado de ervilhas e não deixe de provar o Creme Brûlée servido num "prato" muito singular.
 

Serra da Esperança, Belmonte
T: 275 910 300
http://www.conventodebelmonte.pt/

Salsa & Loureiro (Hotel Porto Palácio)
 

Tem a assinatura do chefe Hélio Loureiro, mas a tónica não está na criatividade, mas sim na simplicidade. 
Aqui, a ordem da casa é respeitar o receituário tradicional e elevar a nossa gastronomia através do orgulho de fazer bem o que é bom. 
Arroz de polvo no forno com filetes, um Bacalhau com migas de broa e grelos e uns belos Rojões à moda do Minho com papas de sarrabulho fazem parte daqueles de que não prescindo.
 

Av. da Boavista 1277, piso -1, Porto 
T: 226 086 704
www.hotelportopalacio.com
 

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 16 de Setembro de 2011