sexta-feira, 8 de julho de 2011

Finalmente é sexta-feira

Depois de assistir a vários e animados debates na Assembleia da República, denotei uma tendência clara em utilizar os dados estatísticos, então dei por mim a fazer pesquisas e deparei com estes números: as receitas brutas no negócio directo no turismo em 2010 foram de 7.631,2 mil milhões de euros, bastante acima dos 10% do PIB. Acho que está na altura de criar um Ministério do Turismo, as receitas já o merecem.
Já no que respeita a novidades gastronómicas há muito para falar, não no que respeita a novas aberturas, mas cartas e caras novas.

Panorama

Com nova carta e uma criatividade sem limites está o novo menu do restaurante Panorama do Hotel Sheraton de Lisboa. Afirmo com segurança que o chefe Leonel Pereira é provavelmente o melhor chefe português da actualidade, e para sustentar a minha afirmação está a "capoeira".

Uma interpretação muito singular da canja, onde os sabores estão lá todos, e o pormenor do ovo em crescimento.

Bem, é melhor passar por lá para compreender o que eu digo. Este chefe algarvio cheio de memórias gustativas, consegue transpor para os seus pratos os valores e sabores dos pratos tradicionais portugueses, de uma forma criativa, palativa e muito visual.

T: +351 21 3120000
www.sheratonlisboa.com

Bairro Alto Hotel e o restaurante Flores em Lisboa

O Bairro Alto Hotel e o restaurante Flores em Lisboa apostaram no chefe Vasco Lello para reestruturar a carta e dinamizar gastronomicamente o restaurante.

Ponto positivo para o esforço, e depois de duas visitas, uma para o almoço e outra para o jantar, destaco pratos como o bacalhau confitado com "ras-el-hanout", grão, harira, briouat e óleo de argan com muitas influências marroquinas e asiáticas, e a sela de coelho braseada e recheada com os "miúdos", a perna assada e desfiada com tomate, azeitonas e manjerona.

Apesar da forte influência na sua cozinha de um dos seus mentores, Aimé Barroyer, já dá para notar alguns traços da sua personalidade.

É certamente uma experiência a repetir.

T: +351 21 3408252
www.bairroaltohotel.com

KOI Sushi

Em Portugal, o Sushi veio e tende a ficar e um dos exemplos mais fulgurantes é o Restaurante KOI Sushi, que no próximo dia 15 de Julho celebra o seu aniversário.

O chefe e sushiman Japonês Kazunori, preparou para este dia várias supresas que vão muito além das suas iguarias!

Entre as 18h e as 20h do dia 15 vai haver muita música na esplanada com um DJ, um concurso de Cosplay (máscaras de super heróis de Manga Japonesa), escrita no nome em Kanji (caracteres Japoneses), prova de sakê, prova de cerveja japonesa Kirin e uma prova de Sushi.

T: +351 21 3640391
www.koilisboa.com

Hard Rock Café

Termino com uma sugestão diferente: uma visita ao Hard Rock Café!

Para quem não sabe, esta casa mítica já festejou os seus 40 anos de idade, e oito em Portugal.

Em Lisboa é um espaço fantástico, repleto de verdadeiras peças de culto, como o Caddilac colado no tecto, as guitarras e fatos de vários famosos como Elton John , Xutos e Pontapés e dezenas de outros.

É um local que tanto dá para uma refeição divertida em família, um encontro de empresários, ou simplesmente um jantar a degustar o fantástico HRC Legendary burger!

T:+351-21 3245280
http:// www.hardrock.com

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Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 08 de Julho de 2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Reestruturar para inovar

O vinho tornou-se um fenómeno que passou, há muito, a fronteira do copo e da garrafa - agora, as pessoas querem saber mais, não só do néctar produzido, como também da história que levou à sua produção e, mais recentemente, o seu habitat natural.

Os enoturismos portugueses deixaram de ser uma loja pobre com algumas garrafas do produtor e umas compotas feita pela mãe ou amiga, para passarem a ser grandes salas de prova devidamente preparadas, não só para enaltecer as características do vinho, como também verdadeiros museus e plataformas de explicação da arte de transformar a uva numa memória para a vida.

Mas perante o cenário de crise e de um futuro social e económico incerto, a Symington Family Estates não deixou de acreditar no potencial destes mercados e vai investir na renovação das Caves do Vinho do Porto Graham's, em Vila Nova de Gaia.

Este edifício histórico, datado de 1890, recebe anualmente mais de
60 000 visitantes de todo o mundo, que vêm cá para provar, conhecer e apreciar um dos melhores e mais genuínos produtos nacionais: o vinho do Porto.

São sensivelmente dois milhões de euros que serão investidos para criar melhores condições aos seus visitantes. Para quem não sabe, a Graham's tem mais de 6700 pipas de vinho do Porto dentro das suas caves, que se encontram em maturação nos famosos cascos e tonéis de carvalho. Além das diversas pipas, estagiam aqui milhares de garrafas que esperam pelo seu ponto de perfeição, para chegarem ao mercado no seu melhor estado. São projectos como este que fazem com que os vários apreciadores e curiosos aprendam mais e melhor sobre um dos mais importantes ícones de Portugal.

Haja mais projectos desta dimensão para criar e sustentar a credibilização não só na área enogastronómica, como na necessidade de acreditar que o futuro pode ser mais risonho.

Mudando de assunto, e do Norte para Lisboa, e porque o tempo está quente, aqui fica uma sugestão de um branco bastante enogastronómico:

Quinta do Gradil Viognier Branco 2010

Produzido e vinificado apenas da casta Viognier, da região em grande crescimento de Lisboa, apresenta uma cor cristalina límpida.

O seu nariz é bastante aromático, com aromas de alperce e alguns toques florais, ambos intensos, mas de certa forma elegantes, que se resumem numa boca delicada com boa acidez, num final que se prolonga de forma agradável.
Teor Álcool 13,5%.
Vinho regional de Lisboa.


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Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 06 de Julho de 2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Saborear as tradições algarvias

Sempre que pensamos em Algarve, vem-nos à memória as praias, o sol, as bebidas frescas e, para quem vai em Agosto, um irritante e desconcertante trânsito veraneante.

Mas a verdade é que a costa é apenas parte de uma região imensa em que há mais terra que areia, e é pelo interior que andei a passear na demanda dos sabores regionais.

Lanço-me à estrada e, depois de alguns quilómetros da "125", apanho a já chamada estrada antiga para Lisboa. Depois de passar a bomba de gasolina da BP, na saudosa estrada nacional, (bomba que, para muitos da minha geração, era o prelúdio de mais alguns minutos para chegar ao "Algarve das praias"), viro no cruzamento que indica Messines e, ao chegar à rotunda que tem Messines à direita, viro à esquerda e ,alguns centos de metros após, vejo a placa que anuncia: Restaurante Mussiene.

Parque privativo com sombra debaixo da latada, esplanada montada, mas a minha opção recai no interior - o calor do dia obriga ao aconchego fresco do ar condicionado, mas, com o fresco das estrelas, este promete ser um local mais apetecível e romântico.

Lá dentro, a decoração simples, mas não chocante, é acolhedora, com alguns pormenores interessantes, como a garrafeira que ocupa a parede de fundo, um bar com várias garrafas expostas e uma sazonal exposição fotográfica. Hoje a artista era da terra e o tema são imagens locais.

Sento-me à mesa e inicio logo os meus trabalhos com uns carapaus alimados sobre umas migas, tapenade de azeitonas e tomate - boa combinação, apenas uma pequena distracção no alho, que por vezes se sobrepunha aos outros sabores.

A seguir, a espetada de polvo com batata de Aljezur - mais uma vez, tudo bem confecionado, havendo uma boa combinação entre o doce da batata e o salgado do polvo, dispensava a pimenta rosa fresca, mas acredito que muita gente gostará.

Numa combinação mais séria, veio o robalo com espargos verdes e batata sauté. Quando os produtos são bons, dificilmente se consegue estragar e, neste caso, até enalteceu as qualidades frescas do robalo à linha.

Ainda houve espaço para umas costeletas de borrego (carré) com um ratatui de legumes da região e fundo de carne! Carne rosada, saborosa e exactamente no ponto em que foi pedida - nada a apontar, a não ser uma salva de palmas.

Não sei como, mas ainda dei umas dentadas nas bochechas de porco preto com puré de batata e brócolos, carne macia bem confecionada, mais uma vez, sem remates negativos - talvez fosse importante cuidar um pouco mais a apresentação deste prato.

Terminei com duas sobremesas: um bolo quente de chocolate com gelado e coulis de frutos silvestres e uma pêra bêbada com cama de baunilha.

O primeiro estava demasiado doce e o chocolate era banal, não elevando nada para as memórias; a segunda já era o oposto: a pêra estava bem cozinhada os sabores fortes do vinho e da canela não abafavam o "doce" da pêra - pelo contrário, harmonizavam muito bem e a baunilha dava um toque exótico ao prato.

Fiquei fascinado com a cozinha simples do chefe David Coelho: sem grandes pretensões, honesta nos produtos, simples na apresentação (por vezes demasiado simples) e forte em tradições e aromas.

O Algarve e o seu interior ganham por ter locais como estes e, quem por lá passa, ganha uma recordação do que melhor a região tem para oferecer.

A boa comida por um bom preço, nunca se nega uma visita.

Detalhes
Restaurante Mussiene
Monte de São José
8375-052
São Bartolomeu de Messines
N 37º14'52.9, W 8º17'04.98
+351 282 339 357 / 918 831 456
mussiene.restaurante@gmail.com
Horário: Terça a Domingo 12h00 às 15h00 e das 19h30 às 22h30 Preço médio: €25 Tipo de Cozinha: Regional Algarvia Contemporânea
Cartões: Todos

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 29 de Junho de 2011

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Altas Quintas - Um projecto sólido

Recordo com certa facilidade a primeira vez que tive a oportunidade de provar um néctar das Altas Quintas: o momento ficou marcado e registado em 2006.

Estava eu no restaurante de um amigo que não se calava a falar de um novo "alentejano" que tinha recebido e que era bastante diferente do perfil tradicional desta região!

Era o Altas Quintas Colheita de 2004 e depois de o provar fiquei entusiasmado e pedi logo para me reservarem uma caixa. Passaram alguns anos e tive a oportunidade de provar esse mesmo néctar, e apesar de estar ausente dos taninos, e apesar da cor tijolo - factor da idade - continua um vinho muito interessante e bem agradável.

O segredo deste produtor está na forma como é encarado o projecto: "Os vinhos fazem-se na vinha, não na adega".

As vinhas, essas, são todas na região demarcada de Portalegre, junto à Serra de São Mamede, representando 48 hectares numa propriedade com uma área total de mais de 250 hectares. Plantadas a uma altitude que varia entre os 500 e 650 metros de altitude e com orientação de norte-sul, está povoada principalmente com castas da região como a Trincadeira , Aragonez e Alicante Bouschet nos tintos, e Verdelho e Arinto nos brancos.

A adega é uma simbiose entre o moderno e o tradicional, havendo desde os lagares de granito e os fantásticos balseiros da Seguin Moreau, às modernas e refrigeradas cubas de inox, vinimatic, de onde saem os vários néctares directamente para as garrafas ou em alguns casos para estágio em barricas de carvalho que nunca excedem os três anos de idade.

O enólogo dispensa apresentações, e é um dos grandes responsáveis pelo sucesso do projecto - Paulo Laureano , que sabe o que faz, e o que faz, faz bem.

Os resultados práticos para 2011 já foram apresentados: um branco e um tinto, ambos "colheita", ficando a faltar o "reserva", que se espera no mercado ainda antes do fim do ano.
Aqui ficam as notas de prova dos novos lançamentos:

Altas Quintas Colheita Branco 2010

Produzido das castas Arinto e Verdelho e fermentado em barricas novas de carvalho francês.
Apresenta uma cor citrina límpida e fortes aromas a fruta tropical, bastante fresco e no nariz distingue-se de forma equilibrada o contacto com a madeira, através das notas especiadas e fumadas.
A boca é uma boa revelação, fresco, bastante untuoso onde a fruta tropical se revela interessante, o final é longo, persistente e cativante.
Grau alcoólico; 13º.
PVP €12.

Altas Quintas Colheita Tinto 2007

Vinificado das castas Trincadeira, Aragonez e Alicante Bouschet, fermentou em balseiros de carvalho francês e, depois da fermentação malo-láctea repartida entre os balseiros e barricas, partiu para um estágio de 18 meses em barrica, seguindo para as garrafas onde ficou durante um largo período a procurar equilíbrio, antes de ser lançado para o mercado. Esta forma ponderada de produzir resultou num vinho com uma cor jovem, granada, apesar dos quatro anos de idade.
Os aromas de fruta compotada, bem como alguns toques mentolados, e bastante especiaria e tosta (resultado do estágio na barrica), remetem-se para uma boca equilibrada, elegante e bastante fresca.
Um vinho distinto e cativante e bastante gastronómico.
Grau alcoólico: 14º.
PVP €19,5.

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 22 de Junho de 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Segredos Algarvios

Quem não arrisca não petisca!"

Este é o meu lema de vida, pois só assim posso fazer novas e interessantes descobertas por este país fora e o mais extraordinário é que muitos desses segredos são destino comum de vários "internacionais". Nós, quando não queremos ir, temos sempre o cliché "Isso é um sítio só para estrangeiros".

Pois foi por curiosidade, e ultrapassada a barreira do cliché, que decidi conhecer o Monte do Casal e o seu restaurante, um pequeno boutique hotel escondido sobre uma intensa e belíssima vegetação na estrada que separa Estoi de Moncarapacho, mais precisamente no Cerro do Lobo.

Depois de uma pequena visita ao jardim, paisagisticamente preenchido com árvores exóticas, lagos, quedas de água, repuxos, rãs, sapos, carpas koi e até um coelho, decido ficar para comer uma salada.

Ao chegar ao restaurante, não tenho dúvidas em optar pela esplanada virada para o relvado e a riqueza de sons e cores já descritos anteriormente.

Uma salada era a minha intenção, mas rapidamente rendi-me à carta e decidi pegar nos talheres, encher os copos e partir para a aventura.

Como cortesia, o chefe enviou o seu amuse bouche, um pequeno shot de gaspacho, muito suave, devidamente condimentado e suficientemente fresco para ser um bom prognóstico de uma bela refeição.

Para entrada chegou um belíssimo e apelativo parfait de fígado de galinha ao Porto, com geleias de figo e tostas quentes - notei alguma semelhança com um já provado em Londres no restaurante do Heston Blumenthal (The Fat Duck), e a curiosidade levou-me a perguntar.

Para surpresa minha, o chefe George Tanock trabalhou por lá durante dois anos e nota-se muito a influência da sua passagem por um dos locais considerado, por muitos, o melhor restaurante do mundo.

Sem desrespeitar a receita original, deu a este prato um toque pessoal estilo "Tanock", tornando-o fantástico: o parfait a lembrar um pouco uma mousse, bastante cremoso, as geleias com toques doces, o Porto ligeiro, mas presente, e outros elementos que, parecendo muitos, combinavam, no seu todo, de forma harmónica e viciante.

Para principal, pediu-se o camarão tigre salteado com risotto de ervilhas e barriga de porco preto confitada, tudo muito bem confeccionado, revelando boa técnica.

No entanto, o risotto estava um bocado sensaborão, precisando de uma revisão, ao invés da barriga de porco que estava macia, saborosa, levando certamente várias horas de cozedura para poder atingir tal macieza.

Terminei com um doce: ananás caramelizado, merengue e gelado de lima. Confesso que não sou apaixonado por esta área gastronómica, mas soube-me bem.

A textura do ananás ficou mais macia no seu interior e crocante no exterior com a caramelização, e o gelado de lima cortava o excesso de doce da fruta e do merengue.

Este chefe tem apenas 30 anos, mas já demonstra muita segurança na arte dos tachos e panelas e, para rematar, estamos a falar de um local lindo com uma paisagem apaixonante.

Aqui está um bom exemplo de que "quem não arrisca não petisca!"

Detalhes
Restaurante do Monte do Casal
Monte do Casal, Cerro do Lobo, Estoi
8005-436 Faro (Algarve)
07° 52' 19.7" W, 37° 05' 04.1" N
Telefone: +351 289 990 140
www.montedocasal.com / reservations@montedocasal.pt
Horário: Aberto todos os dias das 12h30 às 15h00
e das 19h30 às 23h00
Preço médio: €35 (€54 Degustação, €79 com vinhos)
Tipo de Cozinha: Internacional Contemporânea
Cartões: Todos

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 15 de Junho de 2011