quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vamos a provas?

Não é novidade para ninguém que vivemos tempos difíceis, sendo que uma das áreas mais penalizadas é a da agricultura.

Além, do decréscimo das vendas, sofre com a baixa dos preços, a falta de mão-de-obra devido à desertificação da camada jovem para os grandes centros urbanos e a que pode ser a maior inimiga: as intempéries.

A produção de vinhos e os seus produtores, apesar da constante e progressiva melhoria da qualidade dos nossos néctares, podem-se gabar do produto mas nem sempre das vendas!

Comprar grandes campanhas de publicidade está fora de questão, pois poucos são os que têm facturação suficiente para poder fazer investimentos na casa dos dois dígitos de milhar, principalmente se o da esquerda for superior a “um”.

Facto extraordinário ainda é a presença de alguns produtores em algumas feiras onde o espírito comercial é zero, mas a desculpa é sempre a mesma: “Se não estamos presentes podemos correr o risco de ser esquecidos!” Enfim, cada um tem o seu orçamento e saberá melhor qual a estratégia para penetrar mais eficazmente no mercado.

O método mais popular é investindo nas provas internacionais e nacionais: medalhas de platina, ouro ou prata são mato, mas o que é certo é que ajudam a vender.

Nas últimas duas semanas houve pelo menos três de que eu tivesse conhecimento: Vinhos do Tejo, Alvarinhos do Mundo e o Concurso de Vinhos Douro e Porto.

Do concurso realizado sobre os vinhos do Tejo, uma região que nos últimos tempos tem dado cartas fortes na área vitivinícola, destacaram-se três vinhos com medalhas de excelência: Conde de Vimioso Reserva Tinto 2008, Vale D'Algares Selection Branco 2010 e pela primeira vez um rosé, Quinta da Alorna Touriga Nacional Rosé 2010.

Uma nota especial para o Enólogo do Ano, Nuno Falcão Rodrigues, que já há vários anos tem vindo a surpreender pela positiva com o trabalho feito na sua adega no Centro Agricola do Tramagal, com marcas como o Mythos ou o Casal da Coelheira.

Num concurso muito arriscado, o dos Alvarinhos do Mundo, poderia haver surpresas negativas e o júri internacional escolher e preferir os Alvarinhos de fora aos nacionais, mas os lusos destacaram-se e receberam as mais altas notas possíveis.

Havendo 10 medalhas de ouro para Portugal numa contagem total de 14, sendo a lista composta por: Soalheiro, Alvarinho QM, Dona Paterna Reserva, Dona Paterna, Aveleda Alvarinho, Quinta do Regueiro, Quinta das Alvaianas, Castrus de Melgaço, Alvarinho QL e Soalheiro Reserva.

Já em terras de Douro, mais precisamente na Régua, houve o primeiro concurso de Vinhos do Douro e Porto, e apesar de terem sido distribuídas 15 medalhas de ouro, apenas duas foram de excelência.

Uma para um Douro - Castelinho Premium Tinto 2007 e uma para um Porto - Messias Porto 1966.

Mais provas como o Encontro dos Vinhos e Sabores em Outubro, realizado pela revista dos Vinhos, a Essência do Vinho organizada pela Essência do Vinho, ou as diversas provas e concursos organizadas pelas diferentes CVR, são os locais perfeitos para os produtores mostrarem os seus produtos e o publico provar o que melhor há por este país.

Agora não se esqueça de ter orgulho nos nossos produtores e no dia 10 de Junho comemore o dia de Portugal brindando com um vinho “Produzido em Portugal”!

Para comentar este artigo ou sugerir temas contacte o autor por gourmet@live.com.pt.

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 6 de Junho de 2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Brancos para todos os dias

Sempre que começam a chegar os dias mais quentes do ano, chegam também as novas garrafas dos néctares brancos de 2010 ou os reservas de 2009.

Coincidência ou política comercial? Bem, na realidade não sei dar essa resposta, mas penso que o mais acertado é combinar os dois, pois agora há um esforço maior para a entrada do mercado preceder os dias quentes de Verão.

Longe vão os tempos em que os brancos eram fortemente penalizados por conotações como refrescos ou sumo de uva. Agora há um merecido respeito sobre os brancos e, acima de tudo, há grande qualidade na sua produção. Outro estereótipo que também se perdeu foi o de associar estes vinhos apenas aos dias de calor, ou a pratos de peixe.

Na realidade já se bebem durante todo o ano, e acompanham carnes brancas, saladas, bifes e até caça! Aqui vai um conjunto de "Brancos" que recentemente chegaram às prateleiras das lojas e que merecem alguma atenção:

CARM Maria de Lurdes Branco 2009

Produzido de uvas vindimadas na Quinta do Coa, resultou num vinho distinto, complexo e muito fresco.
As notas cítricas destacam-se, mas numa análise mais cuidada podemos distinguir aromas florais e alguma mineralidade.
Nota-se alguma madeira, mas bastante equilibrada, terminando longo, persistente, mineral e acima de tudo fresco. Faz uma boa maridagem com marisco e peixe grelhado.

Álcool 12,5%.
Servir entre 12º a 14ºC.
PVP €18


Fiuza Chardonnay 2010

Apesar do nome, este vinho é vinificado 85% da casta Chardonnay e 15% Arinto, bastante aromático, onde a sua tropicalidade é expressiva.
A sua estrutura é interessante e complexa, resultando num vinho macio, mas com um final bastante persistente e untuoso.
Acompanha bem grelhados.

Álcool 13%.
Servir entre 12º a 14ºC.
PVP €5,50


Fiuza Sauvignon 2010

100% Sauvignon Blanc, é um monocasta com uma cor bonita cítrica e alguns laivos esverdeados.
O nariz bastante tropical contrasta de forma suave com as notas herbáceas, e na boca revela uma boa acidez (marcada) onde as notas de maracujá e toranja se destacam, terminando bastante fresco.
Bom para acompanhar saladas e pratos leves.

Álcool 12,5%.
Servir entre 11º a 13ºC.
PVP €4


Herdade do Peso Vinha do Monte Branco 2010

Agora com uma nova imagem e uma nova abordagem sobre o tratamento da vinha e vinificação, produziram este branco das castas Antão Vaz, Roupeiro e Arinto.
Resultou num vinho muito frutado, onde as notas cítricas, tropicais e algum floral estão bem equilibradas.
A boca é fresca e com alguma estrutura. Bom para assados de peixe e saladas.

Álcool 12%.
Servir entre 10º a 11ºC.
PVP €3,79


Prova Régia 2010

Vinificado apenas a partir de uvas da casta Arinto da região de Lisboa, mais propriamente Bucelas, foi uma agradável surpresa para mim.
O nariz muito aromático tropical, cítrico, alguma fruta verde e mineralidade, bem como a boca fresca, com boa acidez e o final muito longo e agradável, tornam este vinho muito interessante para o seu preço.
Aconselhável para peixe e marisco.

Álcool 12,7%.
Servir fresco a 8ºC.
PVP €2,6


Prova Régia Premium 2010

Também este Prova Régia foi vinificado apenas a partir de uvas da casta Arinto, mas com a diferença de estagiar 4 meses em barricas.
O nariz muito aromático tropical, com ananás, limão e maçã e alguma mineralidade, reflectem-se numa boca muito fresca, com boa estrutura e o final bastante prolongado.
Para acompanhar com comida, escolha carnes brancas ou uma salada bem temperada.

Álcool 13,3%.
Servir fresco a 9ºC.
PVP €4,3

Tons Duorum Branco 2010

Aqui está um interessante blend entre várias castas: 30% de Viosinho, 30% de Rabigato, 20% de Verdelho, e 20% de Arinto, que revelam uma cor amarela translúcida muito citrina.
Os aromas exuberantes de lima e limão e ananás são os primeiros a revelar-se, seguido de alguns aromas florais e alguma mineralidade.
A boca é bastante equilibrada, boa estrutura, boa acidez e um final elegante, fresco e persistente.
Mais uma vez os mariscos e peixes grelhados irão fazer sucesso com este néctar.

Álcool 13%.
Servir entre 10º a 12ºC.
PVP € 3.99

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 6 de Junho de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O novo Paradigma de Cascais

Não é minha politica visitar os restaurantes logo na sua abertura, pois normalmente ainda estão em fase de ajustes, não só a nível gastronómico, mas também em relação ao serviço.

Mas na realidade, uma vez que estão abertas as portas, qualquer restaurante está sujeito a críticas e opiniões.

Na passada segunda-feira quando subia a D. Carlos I em direcção à Cidadela de Cascais, ainda inebriado pela fantástica vista da baía, deparo com algumas pessoas sentadas à mesa nas varandas do primeiro piso do número 48, e pensei, porque não aclamar esta vista por um pouco mais tempo.

Este é um daqueles espaços que tem tudo para funcionar, pela sua localização privilegiada não só pela vista, mas também pelo vasto numero de passantes que diariamente vagueiam ofuscados pela beleza desta Riviera lusa.

O seu interior é parcialmente denunciado pelas longas janelas envidraçadas (normalmente abertas) que revelam uma decoração despretensiosa, moderna e um bar bonito e chamativo.

As cores escuras e a decoração formam uma simbiose entre o clássico e o moderno calmo, criando um ambiente urbano cool, suficiente moderno para a camada jovem e sobriamente clássico para os menos jovens.

Ao subir para o primeiro piso, apressado para garantir a mesa que namorei da rua, deparo com um belíssimo candeeiro preto sobre o bar, creio que vai ser referencia forte para futuros artigos sobre o espaço.

Já sentado, analiso a lista: para quem abriu no mês passado não está nada mau, uma dúzia de entradas, cinco peixes, nove carnes e sete sobremesas.

Já no que respeita a vinhos a escolha é mais pobre e um pouco confusa, precisando de um pouco mais cuidado.

Além da possibilidade à la carte, há ainda um menu do dia ao almoço, composto por um prato (carne, peixe ou salada), uma bebida, uma sobremesa em shot e um café por apenas €9,50.

No meu caso, e depois de um couvert com várias manteigas, optei pelo creme de espargos, bastante cremoso, com alguns pedaços de presunto para salgar, era boa, mas penso que faltava o efeito explosivo, talvez pudessem desidratar o presunto, dando um efeito crocante e salgado mais acentuado.

Como era segunda, dispensei o peixe e saltei logo para a carne: Vazia charolesa com oito cepes flamejados, seguido do rosbife à inglesa com oito pimentas - em ambos os casos a carne era de bastante qualidade e as guarnições muito idênticas com batata “a murro”.

No primeiro caso a carne vinha ligeiramente acima do ponto.

Terminou-se com a trouxa de arroz doce com gelado de canela e mel: aqui o arroz vinha também ele ligeiramente acima do ponto de cozedura, nada de grave, mas a parelha com o gelado tornava a sobremesa muito interessante, leve, fresca e nada enjoativa.

Alguns apontamentos técnicos a corrigir na confecção, mas o serviço foi sempre atencioso e correcto, o que demonstra uma gerência com algum know-how.

Depois do jantar, e como já era habitual no anterior espaço (Foral da Vila), a noite prolonga-se ao som de new jazz e aos diferentes sabores dos cocktails coloridos até às duas da manhã, não sendo obrigatório acabar a refeição e seguir directo para casa, ou mudar de local para um pouco de animação.

Resta-me agora esperar que o “Paradigma” seja sempre a subir e que Cascais ganhe um pouco mais de vida com este espaço.

Detalhes
Restaurante Paradigma
Avenida D. Carlos I, 48
2750-310 Cascais
09° 25' 13" W, 38° 41' 46" N
+351 214 822 265
www.restauranteparadigma.com
Horário: Encerra ao domingo, Aberto das 12h30 às 15h00 e das 08h00 às 02h00 (cozinha fecha às 11h00)
Preço médio: €25 (sem vinhos)
Tipo de Cozinha: Contemporânea
Cartões: Todos

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 1 de Junho de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Vinhos da Comporta

Depois do desaire da semana passada, em que Portugal foi preterido pela França na realização da Ryder Cup 2018, e assim perdendo um grande investimento numa região que para mim é um filão de ouro do nosso país: A Comporta.

Não digo que gostaria de ver os longos areais, os campos verdes de sobreiro e pinheiro, ou os longos arrozais decorados com prédios e resorts de luxo, mas nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Quem nunca deixou de acreditar nesta região e aposta fortemente no seu desenvolvimento é a Herdade da Comporta, desenvolvendo o seu projecto no turismo, imobiliário, restauração, golfe, sustentabilidade paisagística e aquele que me levou a pensar neste texto: o Vinho.

Foi em 2001 que começaram a plantar uma vinha num terreno que à primeira vista parece um areal, e com a sua proximidade ao mar, presumo que deve ter havido muitas dúvidas em relação ao projecto, mas a realidade é que este conjunto de factores unidos à sua forte exposição solar criaram um micro clima muito propício ao crescimento, desenvolvimento e produção de vinho.

Em 2003 foi o primeiro ano de produção e desde então já plantaram e enxertaram mais vinha, tendo neste momento 30ha de área plantada e já havendo projectos para crescimento desta vinha.

O processo de vindima é manual e, depois de seleccionada, a uva chega a adega em caixas de 20kg onde é novamente escolhida, esmagada e desengaçada, fermentando em lagares de inox.

Já nos depósitos e depois dos melhores lotes estarem escolhidos, passam para a fase de estágio numa sala equipada com os mais modernos equipamentos de refrigeração e humidificação, criando as melhores condições para uma evolução correcta e exemplar.

A adega, além de estar equipada com o mais moderno equipamento para a produção e vinificação de vinho, é um edifício bonito de arquitectura arrojada, o que incentiva muitos dos passantes a fazer uma paragem, arriscar numa prova e no final levarem para casa algumas garrafas compradas na loja.

Aqui está um bom exemplo de como se podem vender bastantes vinhos sem o custo da distribuição.

Focando-me apenas nos vinhos que o enólogo Francisco Pimenta e a Herdade da Comporta produzem, estes dividem-se entre Herdade da Comporta, Parus e Chão de Rolas. Dentro dos que tive acesso, aqui vão algumas notas de prova.

Herdade da Comporta Rosé 2009
Produzido das castas Castelão e Touriga Franca, tem uma cor salmão escura.
O nariz revela framboesas e muita frescura.
Já a boca é um pouco doce, macia e bastante fresca.
Teor Álcool 12,5%.
Preço: €4,80

Herdade da Comporta Branco 2010
Produzido das castas Arinto e Antão Vaz, é bastante tropical e com notas cítricas, revelando-se aromático, estruturado e persistente.
Teor Álcool 13,5%.
Preço: €7,5

Herdade da Comporta Tinto 2007
Produzido das castas Aragonez, Trincadeira, Alicante Bouschet e Touriga Franca, tem uma cor romã viva, revelando muita fruta madura e alguma madeira no nariz e depois uma boca bastante estruturada com os taninos bastante presentes. Boa persistência e acidez.
Teor Álcool 13,5%.
Preço: €7,5

Parus Branco 2009
Produzido exclusivamente da casta Antão Vaz, revela logo notas de ananás e limão no nariz, e na boca os sabores mantêm-se de forma suave, mas rapidamente transformam-se num vinho fresco, mineral e com uma persistência muito apaixonante.
Teor Álcool 14%.
Preço: €10

Parus Tinto 2008
Produzido das castas Alicante Bouschet (80%), Aragonez (10%) e Touriga Nacional (10%).
A sua cor granada e o nariz onde a fruta vermelha madura, juntamente com as notas de madeira, revelam um vinho cuidado onde a oxigenação vai alterando beneficamente a sua evolução.
A boca revela taninos firmes (um pouco duros ainda), boa acidez e um bom equilíbrio das notas de madeira.
Teor Álcool 14,5%.
Preço: €12

De realçar que são vinhos equilibrados com preços justos e que demonstram uma boa solidez da equipa e do projecto de enologia da Herdade da Comporta.

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 25 de Maio de 2011