domingo, 3 de abril de 2011

A Festa de Babette

Em 1988 a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas nos EUA, decidiu justamente atribuir o Óscar na categoria de “Melhor Filme Estrangeiro” ao filme dinamarquês “A Festa do Babette”. A história é sobre uma ex-cozinheira francesa que em 1871 decidiu fugir à repressão da “Comuna de Paris”, e exilou-se num pequeno vilarejo na Dinamarca. Surpreendentemente ganha a lotaria e decide dar uma festa, e convida todas os aldeões da pequena terriola costeira. Estes ao chegarem ficam surpreendidos pelo requinte e luxo que esta dedicou ao pequeno evento. O chefe Joachim Koerper e o restaurante Eleven pela segunda vez decidiram recriar a “festa” realizando um jantar sem precedentes. Caviar, animais exóticos (não em extinção), queijos e muitos mais sólidos, Jerez Amontillado, Champagne Veuve Cliquot, Clos de Vougeot , Porto Graham Vintage de 1999 fazem as honras no que respeita aos néctares.

O jantar vai ser já na próxima terça-feira, 5 de Abril e as reservas podem ser feitas através do telefone 21 386 22 11 (€100 PAX). www.restauranteleven.com

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Finalmente é sexta-feira

Esta foi a semana dedicada aos chefes, hotelaria e alimentação, pois no domingo teve inicio uma das maiores feiras do sector: A Alimentaria. Incompreensivelmente ninguém está contente, todos se queixavam que o mercado está mau, que as perspetivas são péssimas, que não sabem como é o dia de amanhã. Bem, se eu quero comprar alguma coisa e o vendedor está com ar de tragédia, eu faço questão de sair da loja. Sem esperança, boa disposição ou acreditar no que faz, como poderá convencer alguém a comprar? Ao mesmo tempo decorreu o primeiro congresso da Associação de Cozinheiros e Profissionais de Portugal, que se revelou interessante e com futuro. A classe dos cozinheiros anda preocupada, mas parece que procura as soluções, fugindo ao lamento desconcertante. Lembrando um pouco que é pelos clientes, principalmente dos que gostam de comer, que estas classes vivem, aqui vão as minhas recomendações para este fim-de-semana:

A Comidinha

Confesso que a primeira vez que lá fui estive quase para desistir, pois não é dos locais mais fáceis de descobrir, mas depois de experimentar é impossível não voltar.
A garrafeira é impressionante, havendo centos de rótulos diferentes, de todas as regiões de Portugal e a comida não fica atrás.
Aqui, além do peixe sempre fresco, recomenda-se tudo o que venha do tacho: Sopa Saloia, Ensopado de Borrego, Grão com Rabo de Boi, e a Feijoada de Búzios são autênticas odes à gastronomia tradicional.
Se tiver estômago passe uma vista de olhos, e quem sabe uma dentada pelas sobremesas.

Urbanização Torraltinha, Lote 5, Loja B, Lagos.
Tel: 282 782 857.
Preço médio €22

Adega Típica 25 de Abril

A primeira impressão é logo provocada pela atípica decoração, onde vários e enormes potes de barro podem ser encontrados pela sala, e depois pelas várias alfaias e utensílios agrícolas, criando um ambiente rústico e descontraído.
Depois há a paparoca, que é boa e recomenda-se.
Muita dela de influência alentejana, como não poderia deixar de ser: Açorda de bacalhau, carne alentejana grelhada, migas à alentejana, os secretos de porco preto e a Sericaia ou as Migas doces.
Bem poderia continuar a minha lista, mas o que é importante é que tudo é bom e com preços a que muitos citadinos já não estão habituados.

Rua da Moeda 23, Beja.
Tel: 284 325 960.
Preço médio €25

Great

Um dia, e depois de assistir a vários episódios do Hell’s Kitchen do chefe Gordon Ramsey, estava com vontade de comer o famoso bife do general Wellington, e como andava pela região do Porto, depois de várias tentativas frustradas, dei com este restaurante.
Não só o Wellington é bom como aproveitei para degustar outros pratos que se estabeleciam sempre por um nível bom de confeção e sabor.
A decoração e o ambiente urbano com caras bonitas também ajudou, e desde então ficou na minha curta lista de recomendáveis.

Estrada Exterior da Circunvalação 15960, Matosinhos.
Tel: 220 025 274.
Preço médio €25

São Gião

Este é provavelmente um dos melhores restaurantes de Portugal, e deve-o principalmente ao génio de Pedro Nunes, que domina de forma sublime a nossa cozinha tradicional, renovando com alguns pormenores de inovação, mas sempre respeitando o essencial: o sabor.
Da sua carta há duas sugestões que nunca me cansam, o peito de pato fumado e o pudim abade de Priscos, vá lá e perceba porquê.
De destacar também a decoração bonita e atual, a lareira no centro da sala e o excelente serviço de sala e vinhos.
Aqui tudo funciona.

Moreira de Cónegos, Guimarães.
Tel: 253 561 853.
Preço médio €35

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 01 de Abril de 2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

Reviver Sintra na Gastronomia

Desde os meus tempos de infância que tenho uma imagem de Sintra igual à que tenho quando entro num museu, tudo é frágil, bonito e para se absorver.

Museus, palácios, castelos, casas e até alguma doçaria, como as queijadas da Sapa, ou os travesseiros da Piriquita, que eram sempre boas razões para visitar esta vila.

Mas quando chegava a hora da refeição, fazíamos-nos à estrada, que a oferta nunca me cativou.

Durante anos foi assim até que, há sensivelmente um ano, mudei drasticamente de opinião. Os chefes João Sá e André Simões, dois jovens criativos, juntaram-se à experiência do sommelier Manuel Moreira e abraçaram o projeto gastronómico do GSpot.

Tenho que admitir que este nome dá para conjugar de forma maliciosa em vários trocadilhos, ou talvez em perguntas inconvenientes, mas felizmente que eu não fui lá para ler, mas sim para comer... e beber.

O restaurante fica na zona conhecida pela Estefânia pelos sintrenses, mesmo ao lado da Biblioteca, onde à noite podemos ver, debaixo de uma iluminação fantástica, alguns dos pratos especiais da vila: Palácio da Vila e suas grandes chaminés, o maravilhoso Palácio da Pena e o intrigante Castelo dos Mouros.

O interior, discreto e acolhedor, tem 20 cadeiras, mesas aprumadas, serviço capaz e uma boa disposição que paira no ar.

Da cozinha, pouco escondida, somos recebidos com um bom dia, boa noite ou um sincero abanar de cabeça, pois aqui não há espaço para esconder "emoções".

A ementa residente é novidade, pois aqui eram conhecidos pelos menus que mudavam semanalmente, mas nem por isso perdeu criatividade, apenas ganhou estabilidade.

Não liguei muito aos couverts, onde um cesto de pão e azeite foram servidos e concentrei-me nos substanciais.

Decidi-me pelo menu de degustação com quatro pratos apenas por €27.

Primeiro foi a surpresa do chefe, um pequeno caldo de corvina com mexilhão, bons sabores, bem temperado e as texturas do peixe adequadas, nada esponjosas ou moles, típico destes caldos.

Depois o brulée de aneto, camarão salteado e crocante de bacon, muito interessante, onde os dois crocantes, do queimado do brulée e do bacon, criaram duas formas de trincar distintas, harmonizando bem com o camarão.

Curioso o sabor do aneto combinado com um salteado.

Seguiu-se uma simpática raia corada com crosta de citrinos e soja salteada, no meu entender um pouco cozinhada de mais, mas bem conjugada com as ervilhas de wasabi e as sojas cozinhadas num belíssimo ponto.

O cachaço de porco estufado, tatin de tomate e puré de azeitona Gordal foi o vencedor da noite, bem estufado, com a carne ainda a manter as texturas e integridade, sem se desfazer ou desfiar de forma precoce.

O tomate relembrava as linhas doces, e o puré estabilizava a guarnição, resultando numa combinação apaixonante ao palato.

Mais desinteressante e desinspirada foi a sobremesa: coalhada de leite cabra com morangos, manjericão e crumble de aveia.

Muitos sabores a sobreporem-se, sem harmonizar, e a introdução do gelado tipo after eight foi totalmente desastrosa.

Sobremesa facilmente esquecida pela qualidade da confeção e produtos anteriores.

O serviço foi sempre correto, atencioso e competente, fazendo sugestões e resolvendo rapidamente as exigências.

Além do branco de colares (€4) servido em bons copos e temperatura correta e um Porto branco para entrada (€3), juntei mais três que levei para o GSpot, pagando apenas a taxa de rolha (BYOB) de €5.

Fiquei com vontade de voltar e, apesar de apenas um pequeno desaire, tenho a certeza que este é um espaço para ficar, visitar e apreciar.


Detalhes
GSpot
Alameda dos Combatentes da Grande Guerra, 12 A/B
Portela (junto à biblioteca)
2710-426 Sintra
W 09º 15' 08'' N 38º 45' 28''
+351 927 508 027
www.g-spot-gastronomia.com / geral.gspot@gmail.com
Horário: Encerra ao domingo e segunda aos jantares, Aberto todos os dias das 12h30 às 15h30 e das 19h30 às 22h30
Preço médio: €30
Tipo de Cozinha: Autor
Cartões: Todos


Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 30 de Março de 2011

(fotografias Fabrice Demoulin)

sexta-feira, 25 de março de 2011

Finalmente é sexta-feira

O tema mais quente da semana foi, garantidamente, a demissão do primeiro-ministro José Sócrates.
Assim, nos próximos dias, as reuniões secretas, as "conspirações" políticas e as decisões sobre o futuro do nosso país vão estar à mesa...
Pois é: muitas destas decisões são feitas em torno de uma boa refeição, naqueles que são os restaurantes favoritos dos políticos. Aqui vai uma lista dos possíveis restaurantes da "conspiração" em Lisboa.

Feitoria

É um espaço recente, mas já ganhou bastante notoriedade entre vários ministros e secretários de Estado do Governo demissionário.

A sua vista sobre o Tejo, a sua decoração onde as feitorias portuguesas são lembradas, bem como os tempos do Portugal conquistador e explorador, inspiram certamente aqueles que mais precisam de ideias e de lembrar como Portugal é grande.

A cozinha fica a cargo do chefe Cordeiro, que nunca desilude e lembra-se sempre dos mais esquecidos sabores tradicionais transmontanos.

Altis Belém Hotel & Spa,
Doca do Bom Sucesso.
Tel: 210 400 200.
Preço médio €40

Casa da Comida

Perto do Largo do Rato, pode-se imaginar quais os políticos que privilegiam este local para as suas refeições.

A escolha é perfeitamente justificável, não só pelo ambiente intimista e discreto, como pela decoração clássica e bonita, e claro, o fantástico jardim interior.

A cozinha ainda guarda na ementa alguns clássicos do Jorge do Vale, mas a assinatura das novas criações vem da mente brilhante do chefe Bertílio Gomes.

Travessa das Amoreiras, Nº 1.
Tel: 213 885 376.
Preço médio €45

A Confraria, York House

Escondido sobre uma intensa vegetação, com um pátio que nos dias de sol se torna num paraíso, é um dos palcos preferidos do presidente da Comissão Europeia: Durão Barroso.

Além de ser discreto, tem uma gastronomia muito interessante, levada a cabo pelo chefe Nuno Diniz.

York House, Rua das Janelas Verde 32,
Tel: 213 962 435.
Preço médio €35


Spazio Buondi Nobre

Esta é a nova casa da Justa Nobre, que depois dos tempos da Ajuda, onde deixou muitas saudades, ganhou muitos adeptos à sua cozinha.

Presidentes da República de Portugal e de outras nações frequentam e juntam-se à mesa deste espaço requintado e inspirador.

A sua sopa de santola ou o cabrito foram com certeza a inspiração de muitas boas ideias que os nossos governantes aplicaram no nosso país.

Avenida Sacadura Cabral 53-B.
Tel: 217 970 760.
Preço médio €30

Varanda do Ritz

O seu famoso buffet ao almoço é ponto de encontro de banqueiros, políticos e muitos, mas mesmo muitos empresários.

No Ritz não há espaço para a discrição visual, pois todos são vistos e reconhecidos, mas um simples acenar de cabeça é o cumprimento da casa, havendo sempre espaço para uma conversa reservada e privada.

Ao jantar, a cozinha do chefe Pascal Meynard também cativa e eleva a conversa, pois desvia um pouco do tema de chegada e, forçosamente, fala-se do prato que acabou de chegar à mesa.

Rua Rodrigo da Fonseca 88
(Ritz Four Seasons Hotel).
Tel: 213 811 400.
Preço médio €45

Cimas Restaurante

Já são várias gerações de políticos, empresários e até famílias reais que escolheram este espaço, tanto para uma excelente refeição de cozinha tradicional portuguesa (e alguma internacional), como para se encontrarem com os seus parceiros económicos ou políticos.

Quem lá vai raramente se esquece do gratinado de lagosta, os pratos de caça e os fantásticos crepes Suzette.

Avenida de Sabóia 9, Cascais.
Tel: 214 680 413.
Preço médio €50

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 25 de Março de 2011

quinta-feira, 24 de março de 2011

Quinta de São Sebastião: Reserva Tinto 2008 - Da Arruda... do tinto

Por João Barbosa/VTC

Há produtores que conseguem furar a imagem que o público, ou só os enófilos, têm duma região. Se a moda passa pelo Douro e Alentejo, outras regiões vivem as amarguras causadas pela reputação, herança de muitos anos a produzir vinho de qualidade menor. Assim acontece com a Estremadura e com o Ribatejo, que, por esses motivos, alteraram a sua designação para Lisboa e Tejo, respectivamente.

A Quinta de São Sebastião, situada na Arruda dos Vinhos, é um desses casos em que a qualidade desfaz a fama e que luta contra o preconceito. De assinalar que não é caso único na região de Lisboa, mas a verdade é que as quintas mais badaladas se situam ao redor de Alenquer. Todavia, esta está na Arruda e é de lá que parte para a conquista dos consumidores.

Tiago Carvalho, o enólogo, assume o prazer do projecto e o desafio que é fazer um vinho numa terra pouco valorizada pelo consumidor. Conta que, quando foi convidado para assumir a enologia, lhe foi pedido um vinho que tivesse corpo, estrutura, mas também elegância. António Parente, homem da televisão e proprietário da quinta, mostrou-lhe o que pretendia, apresentando, em prova cega, dois vinhos. Da "junção" dos dois deveria sair o seu néctar.

O enólogo não se impressionou com o primeiro, mais novo, mas compreendeu a ideia. Espantou-se com o segundo. Poucos dias antes, bebera um Barca Velha de 1981 e tinha-o, por isso, bem presente na memória. Embora lhe fizesse lembrar essa mediática "pomada", o facto é que o servido "às escuras" mostrava qualidade idêntica ou superior. Revelado, era um vinho da Adega Cooperativa da Arruda dos Vinhos de 1968.

Com este exemplo, António Parente quis também sublinhar o potencial, em termos de qualidade, da zona da Arruda do Vinhos. Tiago Carvalho ficou convencido e jogou mãos à obra. Até agora, saíram um branco colheita e um tinto reserva, além da marca entrada de gama Mina Velha 2008 (tinto).

Para fruta escolheram um conjunto de castas nacionais e estrangeiras. As escolhas recaíram nas tintas francesas syrah e merlot, e nas portuguesas touriga nacional, tinta Roriz (aragonês). Nas brancas só foram plantadas as variedades nacionais arinto e cercial. As uvas são tratadas com "muito respeito e carinho", olhando o resultado final pretendido. Tiago Carvalho não hesita em mandar parar a apanha se tal se revelar benéfico. A primeira vindima efectuou-se em 2007, mas só a de 2008 seguiu para comercialização.

Em termos de ambiente, o que envolve a terra e as vinhas, dá-se uma fusão entre frescura e factores amenos. O ar marítimo vem de 20 quilómetros em linha recta, conferindo a frescura característica. Mas a montanha faz de biombo, o que amansa o vento.

Quanto à temperatura de serviço, o enólogo da Quinta de São Sebastião parte um pouco a ideia feita para um vinho tinto: entre os 18 e os 20 graus. Para o branco propõe as medidas clássicas.

O Quinta de São Sebastião Tinto Reserva 2008 mostra-se complexo no nariz e boca. Demonstra também uma belíssima evolução, com o tempo, no copo. É floral, onde se destacam as violetas, palha e fumo. No palato apresenta notas de chocolate e revela boa acidez, com boa estrutura e taninos elegantes.

Preço Tinto Reserva: 14,5€

Para comentar este artigo ou sugerir temas contacte o autor por gourmet@live.com.pt

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 25 de Março de 2011