quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Harmonizações com caça

Já perguntei a várias pessoas do meio dos vinhos o que é um bom vinho, se há alguma fórmula que mais facilmente nos leve a decidir que um é melhor que o outro.

As respostas foram distintas: a palavra acidez e equilíbrio foram as mais usadas, mas de forma alguma conseguiram ajudar-me a descobrir uma potencial fórmula de análise.

Quase todas as pessoas do meio têm critérios muito bem definidos: cor, aroma, acidez, persistência, final de boca, etc..., mas se formos perguntar a influência de cada um desses critérios a resposta é sempre a mesma: varia!

No fundo e analisando a resposta de todos, só há algo que prevalece em relação aos critérios: o gosto pessoal - é verdade, todos temos e não há forma de fugir à distinção "gosto ou não gosto", o resto é análise técnica.

Nesta coluna quinzenal não sofro de influências, modas, ou sigo uma linha fixa de critérios ou padrões, rendo-me ao que provo, gosto e que penso que as outras pessoas também vão apreciar.

Grande parte das minhas provas são à mesa, juntamente com uma refeição, assim não só faço uma "ficha técnica" do néctar, como também faço harmonizações com diferentes tipos de alimentos ou confecções, sendo um duplo exercício e muitas vezes um duplo prazer.

Assim, e porque penso que esta é uma forma mais arriscada de explicar o vinho, vou a partir de agora escolher um restaurante e fazer lá as minhas harmonizações. Hoje a escolha vai para o restaurante Cimas, no Estoril, provavelmente um dos melhores restaurantes de caça do país.

Juntamente com a Sara Sobral, gerente do restaurante Cimas, fiz a minha escolha de vinhos harmonizando com os seguintes pratos:

Iniciei-me com o cherne com amêijoas, confeccionado à base de um refogado com chalota e azeite e depois corado no sauté, leva natas, caldo de peixe e amêijoas, ficando ligeiramente adocicado e com um ligeiro travo fumado.

A escolha foi imediata para um dos vinhos do Celso Pereira, o Vértice Branco 2009.

Produzido das castas gouveio e viosinho, tem uma acidez que casa bem com o adocicado do prato e a sua mineralidade não rouba o carácter, fazendo uma boa parceria com o cherne.

Foi engarrafado em Dezembro de 2010 e está repleto de personalidade. Teor alcoólico 14%.

O casamento que se segue foi entre a perdiz ao madeira, que, após uma marinada de 48 horas num Madeira seco, é levada ao tacho num refogado de chalota e cenoura, o que lhe dá uma característica única com uma acidez fantástica.

Assim, o vinho escolhido foi novamente uma das criações do enólogo Celso Pereira, desta vez com o Quanta Terra Tinto Grande Reserva de 2008, produzido das casta Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Sousão.

Apesar de ainda ser um vinho novo e com potencial de evolução muito grande, já demonstra uma grande personalidade, onde a fruta compotada se destaca. O seu final de boca persistente, onde as notas de madeira ligeiramente fumadas sobressaem, integram-se na perfeição com a perdiz, criando um triplo prazer. Primeiro quando se prova o vinho, depois quando se degusta a perdiz e, finalmente, quando se combina os dois. Teor alcoólico 14%.

Terminei com um doce, mas não muito, os crepes Suzete e um vinho da região, o Carcavelos de 1990.

Não é um vinho muito fácil de descobrir e segundo sei já não se produzem mais, mas esta região há muito esquecida ainda tem alguns pés de vinha, penso que não têm mais de 3 hectares e produz um vinho generoso singular, com notas achocolatadas e alguns frutos frescos, combina todos o aromas a uma acidez muito fresca.

Se podemos escrever sobre os vinhos que bebemos numa refeição, porque não escrever dos vinhos que devemos beber com certos pratos?

Fica aqui o desafio.

Detalhes
Restaurante Cimas
www.cimas.com.pt
Avenida Marginal, 2765 Monte Estoril
Tel: +351 214 681 254

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 16 de Fevereiro de 2011

Santi Santamaria partiu e deixa saudade

Morreu hoje em Singapura o grande Chefe Santi Santamaria, não vou divagar sobre a sua vida, mas apenas deixar uma modesta homenagem, aquele que foi certamente um dos melhores chefes de cozinha do mundo.

Santi Santamaria

b. 26 de Julho de 1957, Sant Celoni, Catalunha Espanha
d. 16 de Fevereiro de 2011(2011-02-16), Singapura

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Finalmente é sexta-feira

Sempre que se aproxima a data de 14 de Fevereiro tenho uma espécie de calafrios, pois apesar de me considerar um romântico, ligo pouco a esta data. Diria mesmo que deveria haver 364 dias de romance e um dia para descansar, e a data proposta, bem... é fácil imaginar qual seria.

O que é certo é que é quase impossível esquivar-me a um rol de sugestões alimentares românticas para esta data. Os critérios são sempre os mesmos: local bonito, ambiente calmo e lamechas, bla bla bla, e mais um conjunto de parâmetros que nada tem a ver com a gastronomia. Mas, como já disse anteriormente, sou um romântico, por isso aqui vão as minhas sugestões. A única diferença é que são todos locais onde se come muito, com decorações rústicas e o único romantismo sério é a paixão que os cozinheiros têm pela profissão e principalmente para servir.

O Abocanhado

Longe de tudo e difícil de chegar, numa pequena aldeia chamada Brufe, vence por uma gastronomia de excepção, acompanhada por uma vista sobre a encosta do Gerês privilegiada.

O cabrito é um prato obrigatório, a carne barrosã, javali, veado e a pá de porco também merecem a sua atenção.

Termine com o requeijão com doce de abóbora e saia feliz.

Preço médio €25-30.
Lugar de Brufe, Terras de Brufe.
Tel: 253 335 944;

O Geadas

É um restaurante onde a cozinha transmontana é tratada por tu.

Aliás, é tão bem tratada, que se permite a fazer algumas fusões com pratos de outras regiões.

As especialidades começam pelos enchidos, passam pelos maravilhosos cuscuz com costeleta de porco bísaro e os cogumelos selvagens e termina nos pratos de caça.

Preço entre os €15 e €25.
Rua do Loureto 32, Bragança.
Tel: 271 324 413

O Sapo

Entre a estrada de Penafiel e Entre-Os-Rios, está a pequena povoação de Irivo e lá se situa esta mítica casa!

É um local onde não só como bem, como me divirto a pensar numa pessoa que entre lá sozinha pela primeira vez e peça entrada, prato principal e sobremesa para um, pois o mais certo é virem doses para três.

Não destaco nada, porque tudo se destaca, mas deixo aviso: vá com companhia.

Preço médio €15 a €20.
Lugar da estrada, Irivo.
Tel: 255 752 326;

Ribamar

Nunca me desiludiu, sempre que lá vou há sempre algo novo na ementa, um peixe, um marisco, uma confecção.

Aqui há espaço para o tradicional, para o básico e para criatividade, fruto da experiência do chefe Hélder Chagas.

A sopa rica ou o peixe ao vapor são alguns dos pratos que deve provar obrigatoriamente.
Quando lá estiver perca-se nas centenas de referências que a garrafeira alberga.

A vista para o mar até torna o espaço ligeiramente romântico, mas nada em exagero.

Preço médio entre os €30 e os €40, mas depende muito do marisco e vinho que pedir.
Av. dos Náufragos 29, Sesimbra.
Tel: 212 234 317

A Comidinha

Quem acha que Lagos é apenas para peixe e marisco, então tire o cavalinho da chuva e venha conhecer a casa do Pedro Glória.

Não é fácil lá chegar, mas depois de duas perguntas facilmente lá chega.

O ensopado de borrego, o grão com rabo de boi, feijoada de búzios e, claro, muito peixe fresco são as iguarias da casa.

A carta de vinhos é de sonho, havendo mais de 1000 referências.

Preço médio €25-30.
Urbanização Torraltinha, lote 5 - Lagos.
Tel: 282 782 857.

Noélia e Jerónimo

Situado na marginal de Cabanas de Tavira começou por ser uma pastelaria, mas depois de apresentar uma das suas primeiras confecções transformou-se rapidamente num restaurante que só peca pela sua enorme carta, pois são muitas as sugestões e o nosso estômago não dá para tudo.

Mas a frustração é rapidamente esquecida nas visitas seguintes.

Quando lá for prove as pataniscas, a ria alhada, o polvo.

Bem... tudo é bom.

Preço médio €20.
Av. Ria Formosa, Cabanas de Tavira.
Tel: 281 370 649

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 11 de Fevereiro de 2011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Sabor de Cabanas

Eram 14h da passada sexta-feira e andava eu a conduzir pela Av. Ria Formosa em Cabanas à procura de um restaurante muito recomendado.

O nome escapava-me, a morada muito mais e decido ligar para uma pessoa que trata esta região por tu!

Coordenadas registadas e atravesso a renovada marginal que em muito embelezou esta pequena vila.

Estranho o facto de estar muito sol e os restaurantes estarem todos vazios, mas lembrando-me das horas é perfeitamente aceitável. Curioso foi, ao chegar à porta de Noélia, poucas mesas livres se viam, e o serviço não tinha direito ao descanso dos vizinhos.

Eram quase 14h30 e mesmo assim apressaram-se a responder positivamente ao pedido de mesa. Aliás, meia hora após a minha chegada ainda chegou um grupo de 3 que nem pediu, foram directamente para a mesa – eram certamente locais.

A sala é decorada sem grandes preceitos ou algo que se destaque, alguns quadros com fotografias do Ruy de Carvalho, um painel de azulejos... enfim, a minha primeira impressão é que tinha entrado mais numa cafetaria/pastelaria do que num restaurante.

Sentado na esplanada a apanhar sol, dou uma vista de olhos na carta: sugestões do dia eram 5 salgados e 6 doces. Na carta principal havia 11 entradas, 3 sopas, 4 mariscos, 5 omeletas, 3 massas, 14 saladas, 10 peixes, 5 carnes, e ainda 18 especialidades!

Para terminar ainda apresentam 20 sobremesas e 5 opções para fruta.

Rendo-me às especialidades, e para primeiro prato vêm umas tostas de tomate com biqueirão e regadas a azeite(€7), que para começar estava óptimo.

Seguiu-se a canja de amêijoas – 2PAX(€10), muito bem executada, cheia de sabor, apesar das amêijoas de viveiro, o arroz ainda um pouco al dente e os coentros a dar um equilíbrio muito interessante ao bivalve, lembrando muito o bulhão pato.

Fiquei com vontade de provar a muxama de atum com azeite e alho(€5) e a salada de atum(€8), mas fiquei-me por uma tosta com abacate, salsa, rucula, camarão e tomate que não me fascinou, pareceu-me até um pouco desequilibrada, precisando de um pouco mais de acidez.

Terminei os salgados com a raia alhada(€12)- percebi de imediato a alta recomendação para este prato, boa conjugação de todos os sabores e o peixe denunciava fresquidão com a sua carne suculenta e firme.

Havia ainda umas cataplanas e arrozes que pretendia provar, como o de lingueirão com batata doce-2pax(€25). O polvo trapalhão com batata doce-2pax(€20) também está bem referenciado, mas fica para uma próxima visita.

Nas sobremesas, apesar da vastíssima oferta, optei por um Dom Rodrigo(€3), mas havia opções como o mimo de amêndoa(€3), morgado de figo(€3), tarte de alfarroba(€3) entre outros.

A carta de vinhos não é grande espingarda, mesmo assim tem 5 verdes, 18 brancos, 2 rosés e 21 tintos, a preços muito apelativos – falta alguns vinhos com mais corpo, expressão e os rosés são escassos para um restaurante à beira “ria”.

Muito tinha ouvido falar no serviço, e nem a simpatia, nem a eficiência foram objecto de reparos, troco mesmo por elogios, nunca faltou comida no meu prato, bebida no meu copo, e o retirar do prato era sempre acompanhado da pergunta: “está tudo do seu agrado?”.

Em conversa apercebi-me que dentro de um ano mudam de casa e trocam a imagem de cafetaria para restaurante, mantendo sempre a mesma qualidade gastronómica, ainda não estão lá mas já digo: “bem hajam”.

Noélia há seis anos trocou as formas da pastelaria pelos tachos de cozinha, e bom para nós, pois temos mais um restaurante e mais uma cozinheira que merece referência.

Detalhes
Restaurante Noélia e Jerónimo
Avenida Ria Formosa - Edifício Cabanas-Mar
Cabanas de Tavira
8800-591 - Tavira
W 7º 35' 54'' N 37º 8' 8''
+351 281 370 649 / +351 968 534 971
Encerra Quarta-feira todo o dia
Horário: 12h00 às 15h00 e das 19h30 às 22h00
Preço médio: €20
Tipo de Cozinha: Tradicional portuguesa
Cartões: Visa e MB

Texto publicado originalmente no Lifestyle do diário OJE a 9 de Fevereiro de 2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Finalmente é sexta-feira

Semana após semana, procuro, através desta pequena coluna, desenvolver um tema, divulgar restaurantes, indicar um vinho e por vezes recomendar uma leitura!

Pois esta semana vou fazer algo de novo: vou começar com boas notícias, falar de um tabu e terminar com tradições.

A boa notícia é que o presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia, José Bento dos Santos, foi eleito por unanimidade na passada quarta-feira como o novo presidente da Academia Internacional de Gastronomia. O tema do seu projecto de remodelação visa unir a temática da saúde à gastronomia e sabor.

Espero que este seja mais um passo, de forma a dar mais visibilidade internacional à nossa gastronomia, receituário e tradições!

Não sou grande fã de buffets, pois a maior parte que tenho comido são apenas uma tentativa vaga de apresentar dentro de um rechaud algo parecido com comida, mas nos últimos tempos tenho descoberto alguns locais em Lisboa onde o respeito pela qualidade se sobrepõe à quantidade.

Varanda do Hotel Ritz - talvez um dos melhores que já comi. Não é barato e dificilmente destaco uma especialidade, pois nada tem reparos. Funciona durante a semana aos almoços - €57 (águas incluídas).
Tel: 213 811 400

Cenário do Hotel VIP Grand - muita variedade e todos os dias muda a ementa, funciona de segunda à sexta ao almoço - €20 s/bebidas.
Tel: 210 435 000

L'Appart do Hotel Tiara Park Atlantic - aos domingos ao almoço serve cozido à portuguesa e durante o resto da semana é mais variado e cheio de boas opções - €24 (domingo).
Tel: 213 818 700

Terra - para os vegetarianos e vegans não deve haver melhor local, 90% dos produtos não tem matéria animal, e a comida é cheia de sabor. Servido aos jantares de terça a domingo e almoços de sábados, domingos e feriados - €15,90.
Tel: 707 108 108

Termino com uma referência ao excelente trabalho de pesquisa e divulgação que Catarina Portas tem feito sobre os produtos tradicionais portugueses.

Não é rara a vez que vejo boas ideias a ficarem pelo seu estado inicial - as palavras - e raramente se transformam em acção!

Os Quiosques do Refresco são caso raro dessas situações: foi em Abril de 2009 que abriram pela primeira vez ao público com o intuito de recriar as tradições que havia nestes pequenos pontos de venda - refrescos, ginjinha, vinho quente, e outras bebidas, bem como sanduíches e bolos são alguns dos produtos que aqui se podem encontrar.

Juntamente com o seu sócio João Regal, renovou o culto sobre os xaropes de groselha e capilé.

Felizmente, o produto tem muita qualidade e não é uma daquelas zurrapas sensaboronas, repletas de corantes artificiais e conservantes.

Para comentar este artigo ou sugerir temas contacte o autor por gourmet@live.com.pt