Estive uns dias fora e tive tempo de pensar melhor em
todo este espectáculo triste que é a atribuição de estrelas Michelin! Já passou
o tempo em que olhávamos para o guia vermelho e tínhamos a certeza de que os que
por lá vinham distinguidos eram os melhores entre os melhores, se faltava algum
era porque ainda não tinha sido visitado – um azar!
Outro ponto que era sempre certo era que, como os
inspectores são todos espanhóis, havia sempre uma maior tendência a distinguir
os restaurantes dos nuestros hermanos preterindo os nossos.
Nos últimos anos tenho assistido ainda a um decréscimo
maior em relação à nossa alta gastronomia vista pelos olhos dos tais inspectores
– sendo os pontos de cocção um dos temas mais controversos!
Lá porque do outro lado
da fronteira gostam de comer o peixe cru, num estilo muito estranho de sashimi,
não quer dizer que aqui também se coma da mesma forma. Aliás, só mesmo em
Espanha é que se aceita alguns pontos de cocção, seja em que alimentos for, e
acha-se o máximo.
Nós e o mundo gostamos dos nossos pontos de outra forma e lá
porque esteja na moda comer quase cru muitas das proteínas, não quer dizer que
seja sempre agradável.
Este ano o guia conseguiu a proeza de acertar em cheio
em algumas das estrelas, falhar redondamente naqueles que mereciam e
catastroficamente em alguns que mantiveram.
Começo pelas injustiças: se a terceira estrela para o
Vila Joya e a segunda para o Fortaleza do Guincho já são merecidas, a estrela
que ainda não foi dada ao Panorama do Sheraton Lisboa e ao chefe Leonel Pereira
é perfeitamente absurda!
Será que estes senhores têm alguma coisa contra este
talentoso chefe? Não há justificação para não distinguir um dos mais talentosos chefes lusos da actualidade.
Tenho de dar os parabéns ao Guia porque deu uma estrela ao Feitoria e uma nova ao Ocean, passando assim para duas!
Outra situação que não se percebe é a manutenção das
estrelas do Tavares em Lisboa e do Willies em Vilamoura. O Tavares baixou o
standard, criando menus económicos, o que não abona em seu favor, e depois mudou
de chefe e de rumo – quem ganhou a estrela foi a criatividade do chefe José
Avillez e não o conservadorismo do francês Aimé Barroyer, que apesar de todo o
seu mérito como grande mentor de muitos chefes da nossa praça, não há razão para
manter a estrela.
Depois o Willies, esse leva-nos a pensar se os inspectores vão
mesmo lá! Além de uma cozinha que me agrada e não me desaponta, não me deslumbra
certamente, e para rematar a negatividade, o serviço de sala é tão medíocre que
não me leva a perceber a escolha neste espaço.
Posso apontar vários no Algarve que fariam o guia ter muito mais credibilidade, como o Pequeno Mundo em Almancil, o Vistas em Cacela Velha, Ou o Emo em Vilamoura – francamente não consigo perceber.
Posso apontar vários no Algarve que fariam o guia ter muito mais credibilidade, como o Pequeno Mundo em Almancil, o Vistas em Cacela Velha, Ou o Emo em Vilamoura – francamente não consigo perceber.
O São Gabriel apesar de mudar de chefe como quem muda de carta, tem mantido o alto padrão de gastronomia, e apesar de por vezes manter a porta fechada por muito tempo, quando a abre, fá-lo em estilo!
Depois a novidade, uma estrela para o Yeatman, pouco
mais de um ano de trabalho e já dá direito a estrela, se é merecida? Isso
nem contesto, porque o trabalho do chefe Ricardo Costa já é conhecido e
reconhecido pelos inspectores, mas se 14 meses de vida são suficientes para não
terem dúvidas, porque será que alguns com mais de 36 meses de excelência não o
merecem? Qual será o critério?
Vou dar o benefício de mais um ano ao guia Portugal & Espanha da Michelin, se para o ano não assistir a justeza e honestidade,
banirei a menção ao guia vermelho em todos os meus escritos a partir dessa data.
Haja honestidade e, acima de tudo, integridade.
As pessoas não são
estúpidas.

